sábado, 29 de março de 2008


Cais

Elis Regina

(Milton Nascimento / Ronaldo Bastos)

Para quem quer se soltar
Invento cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento amor e sei a dor de me lançar

Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho um caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir

Invento o cais
E sei a vez de me lançar

quarta-feira, 26 de março de 2008

Uma piadinha

O OVO


O homem está na cozinha, fritando um ovo, quando a esposa chega e começa a gritar como uma louca:

- JOGA MAIS ÓLEO!!! JOGA MAIS ÓÓÓÓÓÓÓÓLEOOOOO!!!

- VAI GRUDAR NO FUUUUUUUNDO. .. CUIDADO!!! VIRA, VIRA, ANDA VIRA... RÁPIDO!!!

-VAI, CUIDADO! CUIDADO!!! VAI ESPIRRAR...! !!!!!!!

-PARECE QUE VOCÊ É LOUCO.

-VAI ENTORNAR... AI, MEU DEUS!

-O SAAAAAAAALLLLL! !!!! NÃO ESQUECE O SAAAAAAAAAALLLLLLLL !!!

O homem, irritado com os berros, pergunta:
- Por que é que você está fazendo isto?!? Você acha que eu não sei fritar um ovo?

E a esposa, bem calma, respo
nde:

- Isto é só para você ter uma idéia do que você faz comigo quando eu dirijo!


Flor "Ovo Frito"

Flor encontrada no Parque Nacional Chapada dos Guimarães
Mato Grosso - Brasil
(Fonte: http://www.flickr.com/photos/jahponeis/page2/)

quarta-feira, 19 de março de 2008

He is coming with the clouds


Hotsite: http://www.rufusnobrasil.com.br/




Esquadros (1992)
Adriana Calcanhotto

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar

Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve

E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente

Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo

E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?

Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?

Eu acordei
Não tem ninguém ao lado




“Esquadros” tem consciência. “Esquadros” não quer ter consciência. “Esquadros” não sabe como perder a consciência. A melodia reconquista a inocência para a poesia. “Esquadros” sabe. “Esquadros” sabe que não sabe. A letra pergunta. A melodia responde. “Esquadros” finge uma angústia existencial. “Esquadros”, na verdade, precisa de um amor. Todos precisam. Ouvir Adriana Calcanhotto é coisa para pensar. Ouvir Adriana Calcanhotto é coisa para não pensar.

(Noemi Jaffe in "Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções". Publifolha, 2008, São Paulo.)


O belíssimo ensaio de Noemi Jaffe se encontra completo aqui.


domingo, 16 de março de 2008

What I want is a celebration!

Já estou com saudade da Era Confessions, mas vamos ver que doce é esse.

Dizem por aí....

... que em maio ele vem por aqui! Os dedos estão cruzados e as velas acesas!

segunda-feira, 10 de março de 2008

Re-viver

A Fúria da Beleza
Elisa Lucinda


Alguém me perguntou alguma coisa?

Uma hora a gente joga, outra hora é a vez da vida jogar. É assim sempre. Mas, às vezes, a gente quer forçar a barra da vida, impor a ela nosso desejo, enquadrá-la à nossa pressa, determinar o seu tempo, ditar sozinho a ordem das cenas do grande roteiro. Acontece que a vida também é rio, é mar; está sujeita às correntezas, às luas, às tempestades, aos sóis, aos desígnios do vento e nos põe diante da sua verdade incontestável: ela flui. E nos cabe respeitar sua fluência. Por vezes é difícil aceitá-la. Então a literatura vem e ensaia a gente: quando esse livro começou a nascer, seu embrião tinha outro nome, Caderno abóbora. Pretendia esse ser um livro ensolarado, explodido de cores, matizes, com poemas nascidos de um caderninho laranja que tive, donde só saia poema bom. Organizei-o nessa viagem, cuja estrutura se concentrava na variação desse tema cor. Como um fruto que amadurece e passa do seu tempo de colheita, esse Caderno abóbora caiu na relva. Ficou lá, exposto às chuvas, às secas, invernos, geadas, verões intermitentes e às minhas mudanças. Enquanto isso, saiam da mesma árvore e na frente, livros para criança. O fruto ao cair partiu-se e partindo retornou ao seu estado de semente, se misturando de novo à velha terra. Silêncio sobre esse nome.

Enquanto isso a fábrica de poema trabalhava dia e noite sem parar e, quando pude me dedicar ao velho livro, cinco anos depois de sua idéia original, ele já era outro. É certo que não deixou de ser um livro de tons na sua ossadura onírica de cronos e cromos. Havia um espanto além das cores e havia também outros cadernos cheios de outros poemas que falavam ao meu coração, além daquele caderninho fértil. Aos poucos A fúria da beleza, mero nome de poema, foi virando o nome de um capítulo do livro. Dei uma saidinha e quando voltei ele já era o nome do livro e tinha tomado o poder. Caminhava desenvolto no escritório, nos banheiros, na sala, no quarto, na cozinha e me induzia, com força e doçura, a subjugar tudo a seu gosto e capricho.

Fui falar com o Conceito. Estava de costas pra mim, refestelado em sua cadeira, em seu trono de eixo. - Conceito, eu estive pensando...
Pois antes que eu acabasse de falar, ele gira veloz na cadeira de diretor, fica de frente pra mim e sua face já era outra. Era a face da Fúria da beleza.

Tarde demais, o nome já tinha já tinha tomado o conceito.


E do livro:


De Elisa Lucinda
Tatame

Cá estou para uma guerra inesperada
e dificil: lutar contra o meu amor,
o amor que eu sinto.
Puta que pariu!
Civil, despreparada
e desprovida de armas, pareço perder
de cara a empreitada.
Levanto da primeira derrubada
e o bicho já me golpeia certo no
diapasão; justamente o afinador dos fracos,
a bússola sonora
dos instrumentos de canção.
Me emudece, me desafina
ceifa rente meu braço de poema, e,
manca dele, procuro ainda alguma proteção.
Mais um golpe, estou no chão.
O amor caçoa então: quer morrer, danada, não vai lutar não?
Com o bico da chuteira da mágoa
desfiro-lhe dois golpes seguidos no queixo.
O amor ri: não doeu, nem senti!
Irada, engancho minhas pernas em seu
pescoço, tento as tesouras imobilizantes
que copiei das lutas da televisão.
(Que nunca gostei, será que prestei a devida atenção?)
O amor interpreta mal...
Ah, quer me seduzir? Enforcar, que é bom, não?
Eu nada falava, torcia pernas, me esgotava,
fremindo-lhe a cabeça entre as coxas.
Isto pra mim é trepada, boba!
Eu gosto do aperto, do cheiro da roxa
e de te ver roxa.
E gargalhava.
Cansada, humilhada e sem
munição, desmaio e me entrego:
pode me matar, amor
eu estou na sua mão.
O amor me olha de cima então:
querida minha, eis o segredo da esfinge
eis o problema diante da solução:
matar-te é matar-me
e matar-me é matar-te.


Se no chão do amor estava,
nesse chão continuei então.
Deitada sob o amor,
debaixo do amor,
no ringue do amor,
o amor me beijou,
me beijou, me beijou.

9 de Abril de 2005

Fonte: www.escolalucinda.com.br

domingo, 9 de março de 2008

Oh, what a world!


Still I think I'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline
Life is
Beautiful on a New York Times
(Rufus Wainwright)


sábado, 8 de março de 2008



Invisível
Música: Alzira Espíndola
Letra: Alice Ruiz
Poesia: Alice Ruiz

pessoas
com suas malas,
mochilas e valises
chegam e se vão
se encontram, se despedem
e se despem dos seus pertences
como se pudessem chegar
a algum lugar
onde elas mesmas
não estivessem

você se move
como se uma legião invisível
te aprovasse
você se vai
como se de longe
você mesmo
se chamasse
você me vem
como se só em mim
enfim
você em você
chegasse

voz em poema: Alice Ruiz
voz: Zélia Duncan
violão e voz: Alzira Espíndola


quinta-feira, 6 de março de 2008

e vamos conversando
e a con tecendo juntos
con versando
(Aline Leonel)



(Pintura de Amadeo Mondigliani)